O caminho para a interdependência

slide_195760_452006_hugeDurante nosso dia, vivemos cercados de estímulos: seja uma música, uma cor, uma propaganda, ou tudo isso junto. Esses são estímulos externos, mas há também os estímulos internos, que são os pensamentos surgidos a partir de tudo que experimentamos. Esse próprio texto é um estímulo, tanto para eu que escrevo e externalizo tudo que penso, quanto pra ti, que lê e tira tuas próprias conclusões a partir da leitura.

Um dos estímulos mais fortes que temos são as relações que possuímos com outras pessoas. Para simplificar, vamos pegar como exemplo somente o estímulo das conversas que temos: a conversa é um estímulo externo, alguém que te diz algo, e isso vira então um estímulo interno, na medida em que esse algo se transforma em um pensamento interno, uma coisa em que tu acredita e tem como verdade.

O que acontece é que, como as relações são nosso principal estímulo, e a conversa é o nosso principal meio de relação, são essas conversas que mais nos estimulam externamente no nosso dia-a-dia, refletindo depois na parte interna, ou seja, ajudando a criar nossos próprios estímulos internos. Crescemos, nos desenvolvemos, nos tornamos pessoas melhores a partir daquilo que conversamos e depois refletimos. Somos de certa forma, dependentes de nos relacionar com outros para crescer, para pensar o que pensamos. “Tudo que é meu é de outro”.

Cria-se, assim, como diz Ricardo Guimarães, um sentimento de interdependência, um estado em que uma pessoa depende da outra para evoluir. Isso vai contra, porém, dos preceitos criados na nossa sociedade: que devemos ser, o quanto mais e o quanto mais cedo, independentes. Para isso precisamos trabalhar, para ganhar dinheiro e comprar nossa própria casa, nosso próprio carro, nossa própria furadeira. O quanto mais tivermos para nós mesmos, o quanto mais nossa vida for só nossa, mais seremos reconhecidos e, por consequência, mais seremos felizes. Será?

Temos o que considero como quase uma raiva, uma ganância de sermos independentes, de olhar pra trás e dizer “eu, sozinho, construí isso”. No entanto, temos diversos exemplos de que essa independência é falsa: ela é, na verdade, um impulso, quase sempre demonstrado durante a adolescência e que depois é substituído pela interdependência. Essa é refletida na necessidade da criação de uma família, que não é nada mais nada menos que um sistema no qual as pessoas se apoiam umas nas outras, como um tijolo que sustenta o outro, formando uma figura única, uma muralha. Só que, do ponto que somos adolescentes até o ponto que construímos uma família madura o suficiente a ponto de ser uma muralha, lá se vão anos e anos de aprendizado. Aprendizado esse que serve para nos mostrar uma coisa muito importante: temos medo de sermos interdependentes. Medo de, com isso, perder a nossa essência, a nossa liberdade. Afinal, esse é um dos pilares mais fortes dentro de nós, um dos que mais temos medo de mexer – porque dói. Dói reconhecer que não somos totalmente livres, que dependemos de alguém e que esse alguém depende de nós. Dói saber que não somos 100% donos de nosso próprio mundo, que outras pessoas entram nele e mudam as coisas: mãos estranhas pintando nosso próprio quadro.

Mas por que dói, por que não podemos deixar a vida acontecer e nos sentirmos seguros que as pessoas não vão bagunçar tudo que sentimos? O ponto é que não nos sentimos seguros porque não confiamos 100% nessas pessoas, às vezes não confiamos nem mesmo naquelas que amamos. Como entregar o que temos de mais precioso a alguém em quem não confiamos? Mas, será então que está tudo errado? Como não confiamos nem nas pessoas que amamos? O que acontece muitas vezes é que não confiamos em nós mesmos, e por isso temos dificuldade de confiar nos outros.  A confiança é um processo que vem de dentro pra fora, se não criarmos ela dentro de nós, nunca será possível externalizá-la. Confiança, então, é importante não somente para sermos seguros de nós mesmos, mas para deixar que outros entrem no nosso mundo e agreguem a ele. Somente com confiança construímos relacionamentos duradouros: no que é baseada uma amizade, senão na confiança de que um estará lá pelo outro, para o que der e vier? O que é a interdependência que tanto precisamos, senão a mútua confiança entre as pessoas?

O primeiro ponto, antes de tudo, acaba sendo sempre o mesmo: olhar para dentro. Olhar para si mesmo para poder confiar em si mesmo. O quão triste é alguém que não sabe nem ao menos quem é? O quão inseguro é alguém que não sabe nem ao menos quem é? Antes de sermos interdependentes ainda há um longo caminho a seguir, e que passa não necessariamente pela independência, mas sim pelo autoconhecimento, pelo reconhecimento interno dos nossos vícios e virtudes, para só então desenvolvermos, em grupo e com confiança mútua, qual o mundo que iremos construir.

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