Um dia quero ser pobre, para um dia poder ser rico.

300px-Mat_in_Tibet-D4784sSegunda-feira, nove horas da manhã: o momento em que todos os sorrisos ainda estão dormindo. Quando ando pela cidade, voltando para casa depois de um final de semana de muitas reflexões, perco e retomo a esperança (na humanidade e em mim mesmo) mais de uma vez. Vejo nas janelas dos carros e ônibus centenas de rostos, pessoas indo batalhar pela sua sobrevivência na floresta de concreto que criamos. Fico triste em saber que, com certeza, a maioria delas têm empregos em que não são realizados, e que passam seu tempo livre com atividades tão medíocres como assistir ao Faustão. Sinto-me, ao mesmo tempo, culpado e privilegiado, por ter nascido em berço de ouro, por poder me dar ao luxo de trabalhar por uma causa, por poder lutar pelo que acredito e tentar bater de frente com o sistema. Se à noite eu não tivesse o que comer, uma cama confortável para dormir ou um bom computador para usar, com certeza não estaria me dando ao luxo de tentar ir contra o sistema, de tentar buscar a verdade.

Sou (somos) 5%, senão 1% da população: pessoas que vivem em boas condições e buscam, além de uma vida agradável, respostas, verdade, autoconhecimento. Para isso viajamos, dentro e fora de nós mesmos. Temos tempo para visitar Paris e também para perguntarmos “quem sou eu?”, tudo graças aos nossos ancestrais. E aí me pergunto: para ter juntado essa quantidade considerável de bens materiais, seriam nossos antepassados devotados exclusivamente para isso? Seriam eles viciados em ganhar e acumular dinheiro, tudo para que hoje nosso caminho para isso seja mais fácil? Bom, não vou entrar no mundo das suposições, até porque cada caso é um caso…

O fato é que vivemos em um mundo de muitas desigualdades, no qual as cem pessoas mais ricas possuem hoje 1,9 trilhão de dólares, enquanto as cem mais pobres não possuem sequer 1,9 dólares. O fato é que os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. Mas, peraí, será que é isso que importa na vida, ter mais ou menos dinheiro? Será que ser rico significa ter bilhões de dólares na conta, e ser pobre significa não ter nada? Na verdade, para mim “pobre não é aquele que tem pouco, e sim aquele que tem muito e só consegue pensar em ter mais e mais”. Rico, portanto, é aquele que tem pouco, apenas o suficiente, e valoriza e é feliz pelo que tem, e não pelo que poderia ter. Hoje, depois de tantos anos, nos demos conta de que o dinheiro é só um meio, e não um fim, e assim começamos (mesmo que lentamente, mesmo que em apenas alguns países) a medir a felicidade das populações ao invés de olhar somente para o PIB. Mas, é possível medir felicidade? Sendo simples e objetivo, felicidade se trata de o quanto “queremos o que temos”, dividido por o quanto “temos o que queremos”. Sendo generalista, mas realista, digo com firmeza que as cem pessoas mais ricas do mundo não se importam tanto com o que já tem, e sim com o que querem ter… Já as cem mais pobres valorizam muito o que tem, mas não pensam tanto no que vão ter. Os com dinheiro aumentam seu denominador, enquanto os sem dinheiro aumentam seu numerador. A partir daí é matemática simples. Quanto maior o denominador, menor o resultado final, quanto maior o numerador, maior o resultado final. Então, no final das contas é verdade: os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres ficam cada vez mais pobres.

Nasci em um berço de ouro. Nasci pobre. Com meus 21 anos tento me libertar das amarras que me prendem ao meu berço, ao meu “ouro”, que não fui eu que conquistei. Tento olhar para dentro, descobrir o verdadeiro ouro, o que está dentro de mim. É difícil, leva tempo. Tudo que quero é viver meu dia, e a cada momento colocar um sorriso no rosto de uma daquelas pessoas que vejo amontadas no trânsito. Se essa é minha missão? Não sei, mas hoje é o que me faz feliz.

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7 pensamentos sobre “Um dia quero ser pobre, para um dia poder ser rico.

  1. Caso você queira entender mais sobre o assunto:

    Palestra de Chip Conley no TED, na qual explica a fórmula que usei para medir a felicidade: http://www.ted.com/talks/chip_conley_measuring_what_makes_life_worthwhile.html

    Discurso do Presidente Pepe Mujica no Rio+20, falando sobre o que é ser rico e o que é ser pobre: http://www.youtube.com/watch?v=zsOGZKRVqHQ

    Matthieu Ricard, o monge na foto, falando sobre os hábitos da felicidade: http://www.ted.com/talks/matthieu_ricard_on_the_habits_of_happiness.html

  2. Gostei muito do teu texto, uma visão clara e ao mesmo tempo idealista,Claro que muitos de nós gostaríamos de poder contribuir um pouco para que essa realidade fosse mudada, mas o que percebo é que nós ficamos acomodados vendo o mundo virado, ficamos pensando como melhorar e nada fazemos, enquanto a vida vai nos levando na nossa nas nossas rotinas e esperando que alguém acorde numa manhã em seu berço de ouro e faça alguma coisa,

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