Pedalando e aprendendo

bicicleta na praiaEstou começando a fazer natação, e um amigo que é nadador me deu uma dica estilo Bruce Lee: ele disse que a água tem que ser como uma extensão do meu corpo, tem que fazer parte de mim. “Quando eu estou na piscina estou bem, estou em casa. Sinto saudades quando estou longe”. Ele se sente em casa na água, eu não, e por isso que para ele é muito mais fácil nadar do que para mim. Fiquei pensando então em o que é se sentir em casa. Quando me sinto em casa, o que é estar em casa pra mim?

Tentei me lembrar das vezes que mais me senti bem, em paz, e me dei conta de que me sinto assim quando estou na beira da praia. Na verdade, me sinto melhor ainda quando estou andando de bicicleta na praia, pedalando na areia. Mas por quê? Cheguei então a três motivos pra dizer que assim me sinto em casa.

O primeiro motivo é que a sensação de pedalar ao vento é libertadora. Ter ar fresco entrando nos pulmões, sentir a conexão com a natureza, se sentir voando. Quando pedalo na praia me sinto parte de algo maior, assim como meu amigo quando está na água.

O segundo motivo é que quando pedalo tenho o poder de andar rápido. Posso ver muitas coisas em pouco tempo, mudar de direção rapidamente, ir até onde achei que não iria. Além disso, tenho o poder de fugir. Ser rápido me dá a sensação de segurança, de que posso tanto fugir daquilo que não quero ver quanto de algo ou alguém que considero perigoso. Sim, sinto medo às vezes quando pedalo. Ser livre não é viver sem medo, pelo contrário. A bicicleta, no entanto, me dá a capacidade de contornar meus medos, até porque, nesse caso, enfrentá-los poderia ser uma tremenda burrice.

Por último, pedalar na areia sempre foi uma espécie de teste de autocontrole e de superação para mim. Na praia onde pedalo costuma ventar bastante, então a primeira coisa a fazer é decidir: começo a favor ou contra o vento? Normalmente começo a favor, pois estou sedento pela sensação da liberdade que falei. Aí entra então a parte do autocontrole: tenho que saber até onde posso ir, pois cada segundo que vou a favor do vento, deixando ele me levar, significa três segundos que terei que fazer força depois, lutando contra esse mesmo vento que antes me impulsionou.

Por mais que eu goste da sensação de liberdade, ela tem um preço, que é o meu esforço posterior. Por fim, vem a parte da superação: tenho uma regra que é a de não “voltar por dentro”, ou seja, não sair da praia para voltar para casa, o que seria muito mais cômodo do que pedalar contra o vento, já que por dentro não venta tanto quanto na praia, e pedalar pelo asfalto ajuda também. A questão é então se superar para “pagar” por toda a liberdade que tive, e fazer isso da maneira que eu acho certa, justa. Se fui por este caminho, volto pelo mesmo: sem atalhos, sem manhas, sem jeitinho. É mais difícil, talvez ilógico para algumas pessoas? Sim, talvez. Mas, para mim, faz todo o sentido, e, além disso, traz um enorme sentimento de gratidão quando vejo a ponte de saída da beira da praia, a mesma pela qual entrei. “Cheguei, conquistei o meu objetivo de hoje.”

A relação com o nosso cotidiano está aí, estampada. Faço com essa metáfora de andar de bicicleta principalmente a relação que tenho (tento ter) com o meu trabalho. Quando pedalo e quando trabalho, levo em consideração tudo o que falei: a sensação de estar fazendo algo que eu gosto, que me liberta; o fato de que gosto de ser dinâmico, viver muitas coisas, mas que ao mesmo tempo tenho medos e preciso me prevenir daquilo que pode me fazer mal; e o valor de que tenho que ser correto em tudo que faço, estabelecer regras em torno daquilo que acredito e seguir essas regras à risca. Para isso, é necessário muito autocontrole e superação.

Nossos dias são repletos dessas sensações, mas também repletos de coisas contrárias a isso: quantas vezes não nos pegamos fazendo coisas que vemos ser um desperdício de tempo, coisas que não gostamos de fazer, ou até mesmo tendo atitudes que consideramos erradas? Quando tu deita a cabeça no travesseiro, te pergunta se fez o melhor que podia no dia de hoje? Se a resposta for não, está na hora de rever alguns conceitos… É claro, a vida não é um mar de rosas e nem um passeio de bicicleta, mas essa é minha busca: conciliar uma vida “boa” com o prazer que sinto ao pedalar na beira da praia, e, ao mesmo tempo, levar todas as pessoas que eu puder junto comigo. Quero me sentir em casa quando estou no trabalho, e fazer isso ao lado das pessoas que admiro no meu dia-a-dia. Quer vir??

PS: Quando estava aprendendo a andar de bicicleta caí várias vezes. Passei vergonha, me machuquei, brigaram comigo. Caí tantas vezes que se tornou algo normal. Cheguei a desistir de aprender, mas acabei voltando a tentar. Minha busca em aplicar esses conceitos de alegria, propósito e liberdade no meu trabalho não é diferente, é cheia de tropeços, machucados e até desentendimentos. No entanto, assim como aprendi a andar de bicicleta, acredito que vou conseguir ter o trabalho que descrevi, cheio de aventuras, mas também com muita superação no dia-a-dia, e, claro, cheio de gente que acredita no mesmo ao meu redor. Assim como tive professores que me ensinaram a pedalar, tenho hoje exemplos, como meu amigo nadador, que me mostram como é ser feliz no trabalho, no dia-a-dia. É o sonho que sonhamos juntos.

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Um pensamento sobre “Pedalando e aprendendo

  1. Parabéns meu amor!!! sempre dizendo coisa lindas e verdadeiras!!! vai a luta, tens muito tempo para trilhar teu caminho!!! Tenha sempre muita sabedoria nas tuas escolhas!! te amo!! beijo

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