Minha crise dos 40

Tenho hoje 40 anos. Parei em frente ao espelho e me olhei por alguns minutos, algo que não fazia há algum tempo. Depois de me ver no espelho, comecei a me observar no dia-a-dia, a analisar minhas atitudes. Percebi algo preocupante, que tem me incomodado bastante. Tenho, dependendo do ambiente em que estou, atitudes totalmente diferentes, como se eu fosse duas pessoas. Sou um dentro de casa e outro fora, e o mesmo acontece quando estou dirigindo ou navegando na internet. O anonimato me protege, e a segurança da minha casa, onde não tenho que impressionar ninguém, me deixa relaxado demais, até comigo mesmo.

Vejo que, como ajo diferente com algumas pessoas, sou, na verdade, falso. Isso porque me preocupo com as aparências, mas não com o interior. Me pergunto: o que realmente importa? Trabalho tanto no meu exterior (buscando a forma física perfeita, beleza, comprando acessórios, maquiando meu corpo) e gasto tão pouco tempo me preocupando com o interior (buscando autoconhecimento, ler mais, ter cultura, visão de mundo, saúde). Me preocupo com o que pensam de mim, mas não com o que penso de mim mesmo.

Em uma escala de motivações, estou na parte negativa: tenho medo de não ser aceito e busco autoafirmação frente aos demais, quando na verdade o desafio está em aceitar a mim mesmo. Para isso, devo me conhecer melhor, e aí sim terei motivações positivas, como a investigação do meu eu mais interno e a busca por poder interior.

Em um mundo de aparências, relações superficiais e muitas mentiras, quem “ganha” é quem sabe fingir melhor.

Olho para mim mesmo e vejo dois “eus”. Um treinado pela sociedade, que só pensa em si mesmo – afinal “eu sou tudo que eu tenho” – e que busca então, dentro do modelo de sociedade estabelecido, “se dar bem”, que significa buscar o que a sociedade estabelece como padrão de felicidade: ter dinheiro, poder e mulheres. Esse “eu” gosta do sofrimento alheio, se diverte ao ver os outros caírem e se gaba de seus próprios feitos. O problema é que a risada dura pouco e logo se inverte, transformando-se em insônia quando deito a cabeça no travesseiro. É como um vício, preciso ver cada vez mais pessoas caírem para me divertir, e logo ninguém mais quer ouvir as histórias dos meus feitos, a não ser aqueles que me sorriem amarelo, prontos para puxarem meu tapete e me verem cair.

Por outro lado, tenho outro “eu”. Essa pessoa está dentro de mim, lá no fundo, e só aparece de vez em quando. Normalmente ele só vem em momentos especiais (quando estou de férias, em silêncio na beira da praia, quando estou com toda a família reunida, ou então quando algo muito ruim acontece, como quando perco um ente querido). Esse “eu” é diferente, ele se alimenta não da desgraça dos outros, mas do amor: dos outros para mim e do amor de mim para eu mesmo. Quando sinto esse amor eu sorrio, e é um sorriso que dura. Quando sinto isso, gosto de sentar e apreciar a natureza, ou então de uma boa conversa com um amigo. Quando sinto isso, à noite me deito e sorrio ao me lembrar desses momentos.

Tenho, sinto que tenho, dois “eus”, que são como duas personalidades: uma irritadiça, gananciosa e individualista; já a outra é calma, generosa e com senso coletivo. Sou dois, mas só posso ser um. Sou uma contradição ambulante, preciso escrever para me entender. Não quero mais ser assim, um “dois em um”. Quero ser 100%, ter princípios e regras próprias, ter posicionamento. Cheguei a conclusão que posso escolher quem quero ser, pois minhas atitudes é que me definem.

Escolher ser irritado e preocupado é simplesmente burrice, mas escolher ser calmo e despreocupado requer abrir mão de muitas coisas que me trazem conforto. Requer treinamento e disciplina, requer acordar todo dia com sangue no olho, e ir dormir só depois de estar bem comigo mesmo.

Não quero ser monge, não quero ser mendigo, não quero ser hippie, não quero ser do contra. Quero ser eu: sem rótulos, sem padrões, sem preconceitos. No final das contas, todos somos eu, não somos? Não quero ser dois, não quero ser falso, nem anônimo. Quero ser sempre presente e verdade, por mais doloroso que isso possa ser.

Vou atrás do que realmente importa, mas não vou fugir do meu mundo. Vou simplesmente buscar encarar da maneira certa os estímulos ao meu redor: as pessoas, os livros, os cursos, as viagens, as regras e valores a que me proponho. Não quero ser o mocinho, mas preciso ser todo dia um super-herói para mim mesmo: só assim serei um, só assim serei feliz.

Sei que isso tudo é um processo, mas que cada dia fique mais óbvio o que realmente importa, e tomara que você não precise também estar em crise para perceber que a vida é muito mais do que um carro, uma moto ou um relógio. Vida é saber viver o momento, é não se apegar, mas ser sempre inteiro. Vida é ter amigos, ter alguém pra amar, é ser você, viver sem medo de errar!

Viva!

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