Relato de uma caminhada em Porto Alegre

Este texto foi recitado enquanto eu caminhava pelas ruas do centro de Porto Alegre.

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Eu ando pelas ruas de Porto Alegre. Não tenho compromisso, mas por algum motivo eu ando apressado. Quando eu percebo isso, paro e começo a andar mais devagar. Olho as pessoas à minha volta e vejo que todos andam com pressa. Por quê?

Eu ando pelas ruas e vejo todo mundo com pressa, vejo as pessoas consumindo, vejo uma placa com uma executiva com seis braços, tentando abraçar tudo ao mesmo tempo. Vejo propagandas de supérfluos, de alimentos que fazem mal, de coisas que não servem para nada. Estendo o braço para atravessar na faixa, mas os carros não param. Vou até a sinaleira e espero para atravessar, mas é incrível como os pedestres não esperam: simplesmente não respeitam o sinal e se jogam na frente dos carros. A pressa está sempre presente, mesmo que no inconsciente.

Eu vejo muitos estímulos errados, e me dou conta que vivemos para concretizar nossos desejos, que são cada vez menores: comprar um carro, um relógio, ou alguma outra coisa que vá nos fazer parecer melhor do que a pessoa que está do nosso lado. Vivemos hoje por isso, mas parece que não nos importamos. É engraçado, e eu fico pensando: se está todo mundo com tanta pressa, será que eu estou errado por não ter pressa, por caminhar tranquilamente, por tentar viver a vida “mais devagar”?

Quando atravesso a rua, fico pensando como seria se…

BUM!

Um carro me atropela. Como que do nada, perco todos meus sentidos; na verdade, todos meus sentidos se afloram, minha mente é que para. Eu não penso em mais nada, só sinto a dor. Tento enxergar onde estou, se está tudo bem comigo. Quando percebo que está tudo certo, a primeira coisa que faço é checar meus bens materiais: se meus óculos estão inteiros, se minha carteira está no lugar, se eu não rasguei minha calça jeans. Por incrível que pareça, essas são as coisas importantes para mim nesse momento, talvez até mais do que a minha saúde.

Saio do sonho: cheguei tranquilamente ao outro lado da rua.

O que eu vejo é que não damos valor para as coisas certas. Temos relações que são sim baseadas em interesse. Meu professor mesmo disse outro dia em aula que temos que basear nossos relacionamentos no ganho financeiro da outra pessoa. Não podemos aceitar um parceiro que ganhe menos de três mil reais. Pode até ser brincadeira, mas toda brincadeira tem um fundo de verdade. Até damos risada, mas se olharmos bem lá no fundo, será que até inconscientemente não valorizamos esse ganho financeiro mais do que deveríamos?

Vivemos uma inversão dos valores essenciais humanos, e o dinheiro fala muitas vezes mais alto do que qualquer outra coisa. Vejo muitas pessoas que parecem ter os valores certos, que querem ter os valores certos, mas que não conseguem aplicar isso no seu dia-a-dia. Me pergunto se eu consigo aplicar meus valores no meu dia-a-dia. Por exemplo, hoje estava andando pela rua quando vi uma senhora que parecia procurar algo no chão. Quando parei para ver se precisava de ajuda ela logo me disse que sim, que queria atravessar a rua, mas que estava quase cega e não conseguia enxergar o degrau da calçada. Eu a ajudei a atravessar a rua, mas será que vai ter alguém na próxima esquina para ajudá-la?

Acho que não, mas tomara que tenha. Tomara que a cada esquina tenha alguém pronto para ajudá-la. Quando eu parei para ajudar me dei conta de que é verdade, as pessoas querem ajudar umas às outras. É um sentimento bom, muito melhor do que querer bater em outra pessoa. Quando tu bate em alguém pode até ser um sentimento bom no momento, mas quando deitamos na cama no fim do dia o sentimento não é mais tão bom assim, a gente não se sente mais tão bem. Me pergunto como eu posso cada vez mais colocar esse sentimento bom em prática, e cada vez mais ajudar pessoas a colocarem isso em prática também.

Quando eu ando pelas ruas de Porto Alegre, eu vejo, além de correria, desesperança. Eu vejo gente que não sabe ser civilizada, que não sabe esperar: não espera o elevador, a sinaleira, a sua vez de falar. Me pergunto se eu sei esperar. E, se eu não sei, o que fazer quanto a isso? Será que realmente eu posso fazer alguma coisa?

Nesse momento, vejo que pareço um louco falando sozinho, mas eu realmente não me importo com o julgamento das pessoas.

Acredito que o segredo de muitas coisas está na preparação. Seja no esporte, em uma apresentação, no trabalho… Então, para viver também tenho que me preparar. Se eu quero chegar na rua e conseguir ser a pessoa que eu espero de mim mesmo, eu tenho que me preparar para isso. A questão é como. É uma pergunta difícil, mas acho que parte da preparação está em conversar com os outros, talvez até filosofar um pouco. Além disso, o segredo está na atenção que damos às pequenas coisas. Quanto melhores formos nisso, melhores poderemos ser nas grandes coisas também. No fim das contas, o segredo está na atitude, na não passividade, na tomada de decisão com segurança e em acreditar naquilo que se faz. E, para isso, aquilo que fazemos tem que estar ligado com nossos corações, ou seja, temos que ser apaixonados por aquilo que fazemos. Acredito então que temos que ser apaixonados por viver, e se preparar para viver cada dia mais e cada dia melhor.

Ando agora mais tranquilo pelas ruas da minha cidade, enquanto o mundo passa correndo atordoado ao meu lado. Posso não ir tão depressa, mas sei bem para onde vou, com a certeza de que a única coisa que importa é o passo que estou dando nesse exato momento. O que mais poderia importar?

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