O que a novela me ensinou

morena_russo64Hoje eu chorei ao ver o último capítulo da novela. Admito, chorei de lágrimas escorrendo no rosto, feito uma criança. Eu não cheguei a acompanhar nem 20% da novela, mas sei que a trama principal envolve o tráfico de pessoas, mais especificamente o tráfico de mulheres para a exploração sexual. Não vi todo o último capítulo, mas a parte que vi foi sensacional. Depois de a polícia ter libertado as garotas traficadas, elas tiveram um tempo para ir até onde  o cafetão delas, o Russo, estava amarrado. Obviamente, elas quebraram ele a pau, e foi nessa parte que eu chorei.

Quando vi essa cena, um cafetão sendo espancado pelas garotas traficadas, vi a metáfora. Russo é o sistema, ou melhor, parte do sistema, que prende e força as garotas a se prostituírem para manter o sistema maior. Basicamente, Russo se utiliza da “força de trabalho” das garotas para enriquecer e se manter no poder. Quando alguma garota se rebelava, ele a sufocava, matando-a ou a castigando de alguma outra maneira. Generalizando a grosso modo, Russo é como as grandes empresas cuja premissa básica de existência é o lucro, ou então como o governo do pão e circo.

Quando eu chorei, foi de alegria e de tristeza. Não foi, porém, alegria de ver “tudo dar certo”, nem de tristeza pelo fim da novela. Chorei de alegria por ver, mesmo que teatralmente, mesmo que somente em parte, a representação da derrubada de um sistema: a surra que o ele levou, a dor que sentiu e o sentimento de derrota vão sempre o acompanhar. No entanto, também chorei de tristeza por saber que, na vida real, todo o sistema continua lá, rindo da nossa cara.

Fiquei triste, na verdade, não por saber que famílias abastadas compram jatinhos para não terem que se “misturar” aos outros, mas sim por perceber que nós somos as garotas traficadas. Nós, cidadãos brasileiros, vivemos nosso dia-a-dia sem perceber que nos prostituímos todo santo dia para manter esse sistema imundo, e fazemos isso sem nem nos darmos conta. Acordamos no horário, saímos de casa de carro ou de transporte coletivo, dizemos “bom dia, boa tarde, boa noite”, ganhamos nosso salário, voltamos para casa, dormimos o “sono dos justos”. Não percebemos, porém, que fazemos isso sem pensar, fazemos isso porque esse é o jeito que se vive. Fazemos isso porque nossos pais nos ensinaram a fazer assim, porque o único jeito de gerar valor é produzir. Fazemos isso para manter o sistema, mas somos as garotas traficadas, enquanto o Russo enriquece com o dinheiro (imposto, lucro) de nossos programas (empregos).

A pergunta é, por que não nos rebelamos? Por que não unimos forças e lutamos contra o sistema que nos aprisiona, assim como fez a Morena? É engraçado, quando mexem no nosso bolso nós protestamos, vamos às ruas unidos, fazemos greve, passeata, trancamos as ruas e invadimos a prefeitura. Mas por que não protestamos pelo direito de sermos nós mesmos? Porque não protestamos pelo direito de fazer aquilo pelo qual somos apaixonados, pelo direito de fazer aquilo que nos faz sentir vivos?

Analisando a novela, dá pra ver que quem liberta as meninas são basicamente duas pessoas: Morena e a delegada, ou seja, a líder, que se rebelou e enfrentou o sistema, e a detentora do poder de decisão, a pessoa que podia “prender essa parte do sistema”. Me pergunto, até quando vamos ser garotas de programa, se rebelando apenas quando baixam o valor do nosso programa? Até quando vamos viver sem líderes, ou, até quando vamos chamar nossos líderes de loucos? Até quando nossos decisores, aqueles que regem o caminho da sociedade, vão continuar sendo covardes sem nenhum poder real de decisão?

Até quando vamos deixar o sistema dirigir a nossa vida, sem nem perceber? Está na hora de ver a vida com outros olhos, está na hora de ACORDAR!!!

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