A luz que cega

6:42.

Ao leste, o Sol começa a aparecer no horizonte. Aos poucos, o dia clareia, se ilumina e revela o que estava escondido pela noite. Agora, é possível ver a cidade sem maiores problemas. Será?

Quando o Sol nasce para um novo dia e ilumina tudo que seus raios de luz alcançam, a cidade, na verdade, se esconde. São doze horas de escuridão, até que o Sol se ponha novamente. Contraditório? Não, mas é curioso. Enquanto estamos com “as luzes acesas” e podemos ver tudo que nos cerca, é como se não pudéssemos ver nada. O fato de enxergarmos com os olhos acaba bloqueando nossos outros quatro sentidos, e assim ficamos “cegos”, pois usamos apenas uma de nossas cinco potencialidades.

No meio da correria da cidade, quem se orienta pelos barulhos? Não dá, não é, pois todos os barulhos são iguais… Quem se orienta pelos cheiros? Afinal, dá pra sentir algum cheiro na nossa cidade? Quem hoje usa o tato para saber onde está? Hoje em dia estamos com tanta pressa que não podemos nem parar para sentir o gosto da comida, temos que comer para voltar correndo para o trabalho.

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Percebo que, quando vemos com os olhos, não usamos nossos outros sentidos. O que dizer então do uso da intuição, em uma sociedade racionalista e em um mercado que vê números e resultados tangíveis? O que dizer sobre agir com base no que sentimos em nossos corações, em uma sociedade em que importa mais com quantos transamos do que com quantos nos conectamos de verdade? É engraçado, vejo muitas mensagens na internet sobre “ouvir o coração”, mas será que sabemos o que isso realmente significa? Conseguimos parar por um minuto e sentir o mar de consciência coletiva no qual estamos imersos? Nos importamos com isso? Queremos saber isso, entender, de fato, onde estamos e por que estamos aqui?

À noite, quem reina é o escuro, que guarda com cuidado segredos da cidade e das pessoas que nela vivem. No entanto, criamos a luz artificial, que, usada excessivamente, acaba nos cegando também à noite. Tenho adotado nos últimos meses a prática de não usar luz elétrica, ou usar o mínimo possível. Isso implica, obviamente, em fazer algumas coisas no escuro. Andar pela casa, jantar, tomar banho. Tudo que dá pra não usar luz, não uso. É talvez um pouco estranho para quem vê de fora, alguém jantando no escuro ou então tomando banho sem ver quase nada: a única luz presente é a luz do luar, que entra pela janela.

Não quero com isso salvar energia para salvar o planeta, embora isso também seja importante. Estou tentando, aos poucos, desenvolver meus outros sentidos, e tenho que dizer que está dando certo. No início é um pouco complicado, mas depois vamos pegando o jeito. Aos poucos, é possível ver, no escuro, a fumaça que sai da comida quente, que nunca veríamos com tanta beleza na presença de uma luz forte; é possível sentir mais o gosto da comida; ouvir com mais atenção aos barulhos da casa e da rua; no escuto, é possível sentir a leveza da água, que normalmente passa despercebida enquanto nossa mente está com mil pensamentos.people glowing man

Acredite, ficar no escuro ajuda a limpar a mente e usar melhor nossos cinco sentidos, na mesma linha de que, quem perde um
sentido, aperfeiçoa os demais. Pois aí está, não precisamos ficar cegos para aprender a ouvir e sentir melhor o mundo à nossa volta: basta querer.

Seguindo essa linha de pensamento, de que, de dia apenas olhamos o mundo, e, de noite, às escuras, podemos senti-lo, pensei se isso não aconteceria com as pessoas que conhecemos. Quando conhecemos alguém, a primeira coisa que fazemos é olhar para essa pessoa: vemos então sua imagem exterior, uma forma que reflete de alguma maneira desajeitada o interior da pessoa, em meio a uma mistura de ego e outros valores idiotas da sociedade.

Podemos então pensar que, quando conversarmos com essa pessoa, iremos a conhecer de verdade. O problema é que estamos tão desacostumados a ouvir, e temos tanta ânsia em falar antes de escutar, que acabamos não entendendo de fato o que o outro fala. São conversas em que dois falam e nenhum escuta: quem se entende assim? Para piorar, tocar nos dias de hoje é praticamente um pecado: nossa sociedade é regida pelo medo e pelo individualismo, e assim ter alguém que nos sente pelo tato (com um abraço, um carinho) é algo impensável. Também não podemos sentir o outro pelo olfato: podemos sentir, no máximo, um perfume fabricado em massa, e que milhares de pessoas possuem fragrâncias idênticas. No entanto, nós não somos idênticos. Novamente, vemos que só podemos usar um de nossos sentidos para conhecer às outras pessoas. Quanto a outros canais que possuímos para fazer essa conexão, como o coração e o inconsciente coletivo, só posso dizer que somos tão fechados e tão ignorantes sobre nós mesmos que nem sabemos que esses portais existem. Como poderíamos então usa-los no seu máximo potencial?

Novamente, chega a noite. Não simplesmente o horário do relógio que indica que agora devemos dizer “boa noite”, mas o momento em que percebemos algo. Estou certo que grande parte de nós já passou por um momento em que percebeu que alguém tinha uma conexão conosco: um laço amoroso, seja ele com um amigo ou com uma pessoa especial. Quando percebemos isso, talvez não saibamos por que, mas sabemos que essa pessoa nos entende, que não nos julga, que podemos nos abrir com ela. Você já sentiu isso? Se sim, deve ter percebido que, nesse momento, você viu além do exterior, você viu e se conectou com o interior dessa pessoa.

O interior, no entanto, não pode ser iluminado pelos raios de Sol nem de qualquer lâmpada que criemos, pois nosso interior não tem forma definida. Só podemos entender e se conectar com alguém quando conseguimos ver além das formas externas, e se desprender das exigências da forma é certamente libertador.

Vivemos em uma sociedade em que a forma é supervalorizada, embora, lá no fundo, nos saibamos que o que mais queremos são pessoas que conhecemos de verdade e que estarão ao nosso lado para o que der e vier. O homem é um ser social, é de nossa natureza querer ter amigos, é de nosso instinto querer ter uma família forte e unida. Os valores da sociedade ocidental atualmente, no entanto, vão contra nossa essência natural.

Falando em essência, várias vezes já me disseram “o que realmente importa é o que está dentro, não o que está por fora”. Entretanto nunca havia entendido a beleza dessa frase: como diria Vinícius de Moraes, “beleza é fundamental”. Concordo com ele, porém essa beleza não precisa necessariamente ser um estereótipo de físico perfeito. Tenho percebido que, quanto mais conheço uma pessoa, people glowingquando mais a ouço, a toco, a sinto, mais seu interior se revela, e, quando isso acontece, dependendo do conteúdo interno, essa pessoa se torna, no seu físico externo, mais bonita ou mais feia. É realmente incrível, é quase inacreditável: conheci pessoas que, no primeiro contato achei lindas por fora, para, depois de várias interações e da descoberta de um interior individualista e preconceito, eu olhar para a mesma pessoa e ver um físico feio, não atraente. Pelo outro lado, conheci também pessoas que, ao primeiro momento não me chamaram tanta atenção, mas que, após a descoberta de um interior lindo, cheio de sonhos e sem julgamentos, me fazem hoje olhar para sua aparência externa e ver uma beleza incomparável. Após conhecer uma pessoa, quem é bonito por dentro fica aos meus olhos, ainda mais bonito por fora. Já quem é feio por dentro fica feio por fora, não tem jeito.

Durante a vida vamos tendo revelações: algumas grandes, outras são menores, mas também muito importantes; alguns percebem antes, outros depois; mas o mais essencial é que alguns agem para mudar, e outros não. Não vim dizer que tive uma grande revelação e que mudei: esse texto não é de autoajuda e nem tenho os 12 passos para a felicidade. Trago, no entanto, uma reflexão: entendi que só consigo sentir e entender (os outros e a mim mesmo) quando me vejo livre das formas, e me vejo livre das formas quando não vejo pelos olhos, e sim pelo coração.

A luz me cega, e aos poucos tento desenvolver meus outros sentidos, que já estavam ficando atrofiados de tanto desuso. Pode ser meio estranho fazer coisas no escuro e ninguém precisa fazer isso para aprimorar seus sentidos, embora seja uma boa dica. No entanto, o que precisamos urgentemente fazer é tomar consciência de só ver o mundo e as pessoas que estão à nossa volta NÃO É O SUFICIENTE. É preciso sentir, compreender, tocar, ouvir, ser inteiro dentro de nossas potencialidades.

As pessoas são mais bonitas por fora quando as conhecemos por dentro. Ou, é claro, podem ser mais feias também. Pois é, não dá pra confiar só na visão, só na luz externa. Ver a luz interna, por sorte, depende apenas de cada um de nós.

 

 

 

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