O juiz

Toda noite me olho no espelho
E não sei o que vejo
Antes de dormir ouço as vozes no bar
Falam alto, dão risada, vivem a madrugada

Algumas vezes olho as fotos
Vejo os quadros
As mensagens guardadas

Me lembro de tudo que tenho
O quanto tenho tudo que preciso e muito mais
Amigos do peito, família presente, uma mulher de verdade
Tenho tudo, coisas reais e possibilidades, bens materiais e oportunidades

Gosto do que faço
Faço o que gosto
Tenho até tempo pra ser filósofo

E o que falta então?
O mundo é tão grande…
Por que simplesmente não entro num avião?

E levo tudo que quero, tudo que tenho
Não na mala, mas no peito
Levo pro mundo cada lembrança, cada sentimento
Me abro pra vida, pra ser eu mesmo

Esse cara tão louco! Às vezes pilhado, às vezes depressivo
Um romântico melancólico, aventureiro do bairro, explorador de janelas, caçador de vistas

Às vezes acho que nasci na década errada
Eu deveria ter nascido no tempo das tabernas e orgias
Ou então na época dos teletransportes
Seria tão mais fácil…

Estou no meio do caminho
Entrando em movimento, entrando em sintonia
Sintonizando a frequência do momento
Pra me libertar dessa serena agonia

Eu quero tanto!
Quero conhecer todos os países do mundo
Quero ter filhos e criar raízes
Quero amar perdidamente
Quero ser tão forte que nada abale a minha mente
Quero ter presença constante, uma energia vibrante
Que venha de dentro, serei do rio a nascente
Que transborda, cria vales e afluentes
Possibilita a criação de um ecossistema
Quero poder ser esse poema

E viver cada palavra, cada verdade
Sem julgamento ou vaidade
Ser infinito, energia circular
Sempre fluindo, alimentando os outros e o planeta
Para receber de volta essa energia renovada
Vibrante e purificada
Clara como a água, como a alma
Leve como a pena, como o próprio vento
Que vem no sopro, de dentro
E vai pra fora, movimento

Quero sentir a terra nos meus pés
Olhar pra frente e ver o horizonte
Sentir o cheiro de mato
Sentir na pele, no tato
Quero sentir que tenho sentidos
E que todos são um
Que posso ver com a boca, sentir o toque com os olhos, ouvir com o tato

Quero sentir meu corpo inteiro
Na natureza, rolando na grama
Com minha mulher, rolando na cama
Comigo mesmo, respirando, meditando

Quero sentir que estou aqui
Pois sei que então estarei voando
Estarei atento, consciente
Responsável, confiável

O juiz ficou na parede
É só ele quem julga agora
O desenho é minha rede
Assim como a escrita é muitas horas
Uma rede pra cair, me jogar sem pensar
Busco na arte um escape pra me expressar

Nessa vida doida, faço o legal e o ilegal
Moralidade é tão mutável quanto um ovo
No fim do dia chega a noite
No fim da noite chega o espelho
E nele nada vejo
Além de uma imagem
Miragem

Um corpo eu vejo
E um olhar meio perdido
Intenções eu sinto
No meio desse labirinto

Me guio por isso, esse é meu norte
Mas não sei se no final serei forte
Fui tão pouco exigido, sou tão pouco vivido
Que tenho essa sede, essa ânsia
De pular de paraquedas amanhã
De ir pra praia às duas pra voltar de manhã

E eu admito
Admito que não sei nada
Mas me proponho, me disponho a ir pra estrada
E vou correndo, aumentando o ritmo

O olho tem a velocidade das nossas pernas
Não, não quero mais que correr
Não, não quero mais
Correndo na estrada achei minha paz

Carrego tudo que é importante no meu peito. Fé, calma, coragem.

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